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Não matarás (1988). Foto: Divulgação.

Por Josiane Orvatich

Gostaria de começar tentando definir, ou ao menos tatear, a palavra melancolia. Não sem razão. Mas por me parecer o sentimento que mais se aproxima da estética de Krzysztof Kieslowski, cineasta polonês falecido em 1996. Em Não matarás (1988), como em Não amarás (1988), ou ainda na Trilogia das Cores – A liberdade é azul (1993), A igualdade é branca (1994) e A fraternidade é vermelha (1994) –, não há revolta, há espanto. Um espanto que paralisa as ações. Isto me soa como a melancolia. Certa paralisia do corpo, da mente, do espírito ou da alma.

Especificamente tratando de Não matarás, não há uma motivação visível para o assassinato no filme. Na confissão ao advogado, um recém-formado em seu primeiro emprego, o personagem do assassino demonstrou certa estagnação depois de ter atropelado, por acidente, com um amigo, a própria irmã, levando-a à morte. Desde então ele deixou a casa da família, no campo, e vaga pela cidade. Às cegas, eu diria. Sem expressão ou desejos. Talvez precise de dinheiro e, sem aparentar planejamento – o que não significa que não o tenha feito – sequestra um taxista e o mata violentamente. Ali sim, há um ódio guardado.

Porém, nesse momento, suspeito de que não se trata mais do indivíduo sendo retratado no filme, mas da humanidade e da necessidade de uma moral que a controle de seus instintos. O título faz parte da série Decálogo, realizada por Kieslowski para a TV polonesa em 1988. Foram dez filmes com cerca de 55 minutos de duração cada, com adaptações livres dos Dez Mandamentos do Antigo Testamento. Dois deles, o próprio Não matarás e o também já citado Não amarás foram produzidos para o cinema.

Remetendo-me a Freud, o tabu só é instalado se se deseja cometê-lo, como o crime, o incesto etc. Essa normatização do comportamento pela via da moral é uma das bases de reflexão do filme. Que, com sua melancolia, parece nos deixar sem ação quanto à nossa própria natureza humana.

A fotografia tem a cor de uma água ainda transparente, mas levemente esverdeada e acinzentada, traduzindo a inação. Há pouco diálogo, como se houvesse pouco a dizer e mais a conformar-se com o que somos. A cena do enforcamento é fria – o garoto que vagueia pela cidade é condenado com um curto julgamento –, prepara-se o local com preocupação quanto à cortina emperrada.

Em nenhum momento a motivação da pena de morte e do assassinato me parece ser mais do que a nossa condição humana vista com o olhar, caso esse olhar existisse, de um espectador neutro que constata uma verdade irrefutável.

* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 010, agosto/ 2009, seção Acervo Básico.


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