À meia noite levarei sua alma (1964). Foto: Divulgação.À meia-noite levarei sua almaPor Rodolfo Stancki
Em 1963, José Mojica Marins teve um sonho e, a partir dele, concebeu Zé do Caixão. Tudo aconteceu muito rápido, o diretor estava em pré-produção de um filme policial quando, em uma noite, acordou subitamente imaginando a figura de um homem assustadoramente parecido consigo caminhando por um cemitério, vestindo roupas pretas. Do pesadelo nasceu seu alter-ego, o coveiro Josefel Zanatas.
O roteiro levou apenas dois dias para ficar pronto. A ideia de produzir o primeiro filme de horror no Brasil levou Mojica ao êxtase de vender tudo que tinha – exceto duas mudas de roupas – para produzir o filme. O restante do orçamento foi conquistado com a venda de cotas nos lucros da produção, prática utilizada em outros longas de sua produtora Apolo.
À meia-noite levarei sua alma (1964) é, sem dúvida, a produção mais importante para o cinema de horror brasileiro. Tanto que o mapeamento do gênero no Brasil realizado pela pesquisadora Laura Canépa, em sua tese de doutorado, a obra aparece como um marco histórico para o horror. Antes de sua estreia, o gênero era apenas sugerido nas narrativas do cinema nacional.
Mojica tinha consciência do pioneirismo de sua iniciativa quando apostou todas as fichas na produção. Chegou a fazer sua equipe dormir no estúdio para economizar dinheiro. Utilizou apenas 13 latas de negativo para filmar – aproximadamente 130 minutos, número absurdo se considerarmos que a duração do longa é de 80 minutos. Sem contar os cenários absurdamente econômicos.
As filmagens tiveram muitos improvisos, impulsos e inventividade. O diretor bolava movimentos de câmeras sofisticados sem ter noção alguma de linguagem cinematográfica. A cena do jantar, por exemplo, em que Zé come carne à janela, zombando dos que participam em jejum da procissão da sexta-feira santa é elaborada em dois planos distintos. Em um deles há o personagem e no outro, os religiosos. Mojica não tinha noção do conceito de plano para realizar o impressionante enquadramento, mas sabia o efeito que queria causar. Só por isso, já é digno de se admirar.
Em termos de horror, À meia-noite levarei sua alma acaba sendo um perfeito filme de monstro. Zé do Caixão é a figura que Stephen King considera essencial para o gênero. Para o romancista americano, em seu ensaio Dança Macabra, a essência do horror sustenta-se em três pilares da literatura inglesa: Drácula, de Bram Stocker, Frankenstein, de Mary Shelley e O Médico e o Monstro, de Robert L. Stevenson. Curiosamente, são obras sobre monstros que acabaram influenciando inúmeras variações. Os zumbis são flexões do conceito de vampiros, cuja origem é o Conde da Transilvânia, os monstros atômicos da década de 1950 são criações das mãos humanas industrializadas como no livro de Shelley, e os lobisomens refletem o conflito entre Dr. Jeckyll e Sr. Hyde. Logo, podemos concluir que, dentro da lógica do autor, o personagem criado por Mojica (que muitas vezes se confunde com o próprio) nada mais é do que um personagem com um complexo de duplo semelhante ao criado por Stevenson.
O conflito de Zé do Caixão presente em O Médico e o Monstro, de acordo com King, abrange num mesmo contexto o simpático, mas psicótico, Norman Bates. Ambos (o assassino do filme de Hitchcock e o coveiro de Mojica) humanos e profundamente violentos. Em especial o psicopata tupiniquim, que apresenta uma monstruosidade diferente da de Hyde (e Bates). O personagem criado por José Mojica Marins é claramente identificado por seu ceticismo e violência, elementos de um pensamento racional coerente com o estilo cru e direto do primeiro filme do cineasta brasileiro, mas incomum para a ideia de duplo do romance de Stevenson.
O personagem lembra-se pouco de seu lado humano – que o aproxima dos homens comuns (seres inferiores, indignos de sua atenção). Seu laço com a sociedade é a angústia por possuir uma bela mulher, em um lapso de paixão. A dualidade entre bom e mau é tênue, quase imperceptível – diferente do que ocorre no romance de Stevenson. À meia-noite levarei sua alma, no entanto, nos permite observar que o coveiro possui um conflito subjetivo. Pois, embora violento e assassino de mulheres e homens, o vilão tem ternura por crianças e anseia por um filho. Ou seja, no fundo ele só quer construir um núcleo familiar, nem que para isso mate todos ao seu redor – e se arrependa amargamente por isso depois.
O filme de 1964 reflete metaforicamente estes arrependimentos na cena da procissão das almas. Ignorando o aviso de uma feiticeira, Zé do Caixão adentra a mata (construída no galpão-estúdio da produtora Apolo com pouco mais de uma dúzia de árvores), inconformado por perder a chance de ter um herdeiro. As mortes que causou ocasionam um delírio luminoso repleto de culpa que acaba com um destino edípico por parte do personagem.
Podemos facilmente concluir que a monstruosidade de Zé do Caixão não está dividida entre seu lado bom e mau como em Jeckyll e Hyde, mas entre seus anseios e suas ações. Embora busque um filho para dar ternura e ser companheiro, o personagem age de forma violenta – assassinando quem ficar entre seus objetivos. Sua aproximação com seu lado familiar (em seu lado Bates) e seu sadismo (em seu lado Sra. Bates) acabam gerando essa dicotomia do horror do personagem.
Fevereiro, 2010.