O curioso caso de Bejamin Button (2008). Foto: Divulgação.O curioso caso de Scott Fitzgerald convertido em drama hollywoodianoPor Mariana Sanchez
Como se sabe, há diferentes níveis de aproximação entre um filme e a obra literária que o originou. Ainda que certos autores insistam na ideia de uma discutível fidelidade, a experiência nos mostra que as adaptações literárias mais interessantes do cinema são as que encontram um sentido para transgredir as intenções do escritor, distanciando-se da literatura para se acercar da linguagem cinematográfica.
Quase nada, exceto o título, restou da obra de F. Scott Fitzgerald no filme mais recente de David Fincher, O curioso caso de Benjamin Button (2008), vencedor de três Oscars na premiação deste ano. Segundo consta, o relato homônimo incluído na coletânea Seis contos da era do Jazz, de 1922, teve como gênese uma frase atribuída ao escritor e humorista Mark Twain: a de que o homem seria mais feliz se nascesse aos 80 anos e chegasse gradualmente aos 18. Partindo dessa observação, Fitzgerald escreveu um conto extremamente cínico e cômico sobre um bebê que nasce com aparência de 70 anos e vai rejuvenescendo com o passar do tempo. Como este relato de apenas 27 páginas de puro humor fantasioso se converteu em um típico drama hollywoodiano de quase três horas de duração só pode ser respondido por um senhor de nome Eric Roth, mais conhecido como o roteirista de Forest Gump, o contador de histórias (1994).
Eric Roth assumiu no ano 2000 o roteiro de Robin Swicord para O curioso caso de Benjamin Button, em andamento desde 1990 – o projeto levou mais de uma década para ser viabilizado, tendo Steven Spielberg, Ron Howard e Spike Jonze entre os diretores cotados. Mas se o texto de Swicord apostava na atmosfera jazzística dos anos 20, em referência à coletânea de contos de Fitzgerald, Eric Roth preferiu tratar a obra literária apenas como inspiração e dar novo rumo à história, imprimindo o inconfundível estilo narrativo que lhe garantiu o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por Forest Gump – o filme de Robert Zemeckis saiu das páginas de um romance de Winston Groom.
De fato há muitos pontos em comum entre Benjamin Button e Forest Gump, sendo o mais evidente a figura feminina de Daisy/Jenny, que surge como uma promessa de amor impossível, incapaz de se relacionar com o protagonista na ocasião de seu primeiro encontro. Em ambos os filmes, é a premissa da fidelidade incondicional ao longo dos anos que garante a concretização do amor, mesmo que pontuado por uma série de encontros e desencontros. No pano de fundo, há ainda os acontecimentos históricos evocados nos dois roteiros de Eric Roth, incluindo a Guerra do Vietnã e o movimento Hippie no filme de 1994, e a Primeira Guerra Mundial, passando pelos Beatniks até chegar à Nova Orleans do furacão Katrina, no filme de 2008 – no conto de Fitzgerald, o episódio é ambientado em Baltimore, durante três conflitos bélicos: a Guerra de Secessão, a Hispano-Americana e a Primeira Guerra Mundial. Já as referências a personagens reais, como John Kennedy, Elvis Presley e Richard Nixon – que atravessam a história de Gump – ganharam maior originalidade na obra de David Fincher, com Elizabeth Abbot remetendo indiretamente à nadadora Mercedes Gleitze e a bailarina Daisy prestando homenagem à célebre Tanaquil LeClercq.
De volta às conexões entre livro e filme, David Fincher pode ter se distanciado radicalmente do conto original, mas não a ponto de romper com sua linguagem narrativa. Prova disso é a opção por manter no filme a voz do narrador, recurso absolutamente dispensável dentro de uma perspectiva cinematográfica, mas que confere à obra o tom dramático e um certo didatismo comuns às produções daquele canto do mundo. Assim, a trama é apresentada por meio da leitura de um misterioso diário, na voz de Caroline ( Julia Ormond), filha de Daisy (Cate Blanchett), que aos 80 anos jaz moribunda numa cama hospital. Rapidamente, a voz de Caroline é substituída pela narração do personagem-título da história, deslocando o tempo presente – 2005, ano do Furacão Katrina – para o dia 11 de novembro de 1918 – fim da Primeira Guerra e nascimento de Benjamin Button (Brad Pitt).
Ao contrário de outras formas artísticas, cinema e literatura são dois meios propícios de se narrar ficções, graças à possibilidade de representar avanços e recuos no tempo. O caso de Benjamin Button é essencialmente uma história sobre o tempo, porém, a partir da inversão do ciclo da vida. Aliás, essa é a única premissa do livro de Fitzgerald que permanece no filme de David Fincher. Ao passo que o primeiro assume um tom satírico e levemente crítico à sociedade norte-americana – que somente aceita Benjamin quando ele prospera financeiramente, ou quando volta da guerra ferido, ostentando uma medalha no peito –, o segundo é bastante competente ao conferir doses homogêneas de humor, romantismo e melodrama à história, capazes de cativar um público mais abrangente.
O conto apresenta o problema de Button de forma direta, sem floreios ou excessiva carga dramática: quando o Sr. Roger Button dirige-se à maternidade do Hospital Particular de Maryland para Damas e Cavalheiros e depara-se com a inverossímil afirmação de que um velho de 70 anos e longa barba branca é seu filho recém-nascido. Apesar do choque inicial, o pai não cogita a possibilidade de abandonar o espantoso bebê na porta de um asilo – por sinal, uma ótima sacada do filme, que permite o desenvolvimento de Benjamin entre outros anciãos, suprimindo as relações familiares descritas no conto de Fitzgerald. Há passagens e diálogos realmente divertidos, bem no espírito de Mark Twain, como as tentativas infrutíferas de Roger Button em criar seu filho como uma criança normal, presenteando-o com chocalhos, soldadinhos de chumbo e outros brinquedos, não sem antes verificar se “a tinta do patinho cor-de-rosa não sairia, caso o bebê o levasse à boca”. A passagem do tempo é marcada pela afinidade que Benjamin tem com seus familiares, primeiramente com seu avô, depois com o pai, filho e, finalmente, com seu próprio neto, o que nunca ocorre no filme de Fincher. Mas a maior divergência entre as obras literária e cinematográfica é mesmo o romance de Benjamin e Daisy – no conto, Hildegard Moncrief. Enquanto no filme a relação atravessa décadas, embora sempre ameaçada por um trágico desenlace, originalmente ela é descrita por Fitzgerald como algo desimportante e passageiro, que definha tão logo a esposa começa a envelhecer, deixando de atrair o cada vez mais jovem Benjamin Button. Fica evidente que o conto transita pelo terreno da farsa e da fantasia, e que seu par cinematográfico opta por percorrer caminhos mais próximos à realidade, ancorado em uma mise en scène naturalista resultante de um primoroso trabalho de direção de arte e fotografia, envolvendo assombrosos truques digitais.
Longe de ser uma adaptação brilhante, Eric Roth e David Fincher acertam ao permanecer fiéis à linguagem cinematográfica, fazendo uso de elementos recorrentes para pontuar a narrativa, como o personagem atingido por um raio sete vezes, o retorno ao trapiche onde o pai gostava de assistir ao pôr-do-sol e a repetição da “história do velho canguru às cinco da tarde”, elementos eficazes para assinalar a circularidade do tempo na trama. Por outro lado, soa bastante piegas a metafórica aparição do beija-flor – alguém lembra da pena ao vento de Forest Gump? –, quase tão piegas quanto as mensagens de Benjamin endereçadas a sua filha Caroline: “nunca é tarde ou cedo demais para ser quem você quer ser”, “você pode mudar ou continuar sendo o mesmo, não há regras para isso”. É realmente curioso pensar que elas podem ter derivado de um bufão, alcoólatra e sarrista como Scott Fitzgerald. Na contramão da obra original, o filme pede uma entrega sentimental que a maioria dos críticos e cinéfilos não costuma estar disposta a aceitar. Ou, pelo menos, a admitir que o fizeram, ocultando ao máximo a torrente de lágrimas ao final da projeção.
* Artigo originalmente publicado em Juliette Revista de Cinema n° 011, setembro/ 2009, seção Do livro à tela.