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Espírito da colmeia


O espírito da colmeia (1973). Foto: Divulgação.

Por Josiane Orvatich

“The right hand does not always know what the left is doing; generosity in Bataille’s universe never can be pure”, diz Allan Stoekl ao comentar a religião na obra de Georges Bataille. Essa afirmação pode ser a chave para compreendermos alguns dos elementos suscitados pelo filme de Victor Erice, O espírito da colmeia, de 1973, cuja história se passa em uma província espanhola, por volta de 1940.

Num ambiente que emenda a Guerra Civil Espanhola com a Segunda Guerra Mundial, duas garotas de aproximadamente sete e oito anos se veem diante da trama Frankenstein, transposta ao cinema pelo diretor James Whale, em 1931, em exibição no salão da cidade. Ana, a mais nova, pergunta à irmã Isabel por que o monstro mata a garotinha com quem conversava à beira do rio, e por que o matam depois. Isabel promete contar à irmã mais tarde, e somente com a insistência de Ana, já em casa, pronta para dormir, dirá que “no cinema tudo é mentira”, ninguém, portanto, morreu; e, além disso, ela mesma já viu o monstro vivo. A aparente ingênua contradição infantil de Isabel desconfia dos fatos narrados no cinema, mas não da imaginação – o monstro não morreu, é uma mentira, mas ele existe. Existe e, continua a mais velha, é um espírito, por isso não morre; seu corpo, no filme, era só um “disfarce”.

A contradição é aparente, pois Isabel sabia bem o que estava fazendo, ou pensava que sabia. Seu projeto era o de fazer Ana crer na existência do monstro como um espírito, brincando com suas próprias descobertas recentes acerca dos temas que surgirão a seguir. Isabel apresenta a casa do poço como o lugar onde vive o monstro – e que ela pode ver, mesmo sendo ele invisível, pois pode chamá-lo apenas fechando os olhos. Ana passa a frequentar a casa do poço, procurando pelo espírito. Lá, encontra uma grande pegada de sapato, e parece ser este o primeiro indício de sua busca.

A partir disso, tudo em volta contribui para a construção de um mundo povoado por mistérios, visto pelos olhos perscrutantes de Ana: o trem, os cogumelos, o homem ferido na casa do poço, a irmã que se faz de morta. O que esses elementos introduzem são o mal e a morte. O trem vem rápido e grandioso representando o perigo – é preciso afastar-se dos trilhos para que ele passe; Ana olha atônita como se o visse pela primeira vez. Com o pai, passeiam pelo bosque à procura de cogumelos bons; o pai ensina como identificar os venenosos e, ao encontrar um deles, afirma ser o “demônio”, esmagando-o com os pés. Finalmente, em uma das vezes em que vai à casa do poço, Ana vê o espírito: um homem ferido, que se descobrirá, a seguir, ter roubado de seu pai o relógio e o casaco. A irmã, Isabel, finge-se de morta para assustar Ana, vestindo-se de monstro.

Depois de todas essas experiências Ana parece organizar as relações entre a morte, o mal e os espíritos em uma imagem de Isabel, como um rabisco negro, pulando uma fogueira. O ápice de sua busca vem com a fuga após ver o pai na casa do poço e marcas de sangue onde antes estava o homem ferido: na noite, tal como no filme de Whale, a garotinha se encontra com o monstro; antes, colhera um cogumelo.

Quando a encontram, Ana está fraca, o médico recomenda repouso e afirma que, por ser criança, está sob o impacto de uma impressão forte, que logo passará. Porém, além de Ana, estão o pai e a mãe sob outros fortes impactos, ainda que adultos. O pai, um apicultor, está obcecado pela compreensão da vida na colmeia; escreve textos à noite para descrevê-la. A mãe, em uma carta para alguém de quem se separou durante a guerra, escreve duvidar de sua capacidade de “sentir de verdade a vida”, depois de tanta tristeza e destruição.

Isabel parece ser a mais próxima de discernir a presença do mal no mundo – aquele da citação inicial do texto – e com ele conviver, quando identifica o cogumelo bom, ou quando aperta o pescoço do gato até que ele a ataque, fazendo seu dedo sangrar. Olhando-se no espelho, Isabel lambuza os lábios de sangue e lambe.

Na apresentação do filme projetado em cena, um senhor pede aos espectadores que, por ser Frankenstein uma obra das mais estranhas já produzidas e muito assustadora, que procurem não levá-la muito a sério. Já o filme em curso, O espírito da colmeia, inicia-se com a legenda “era uma vez...”, um marcador de narrativa imaginária, e ainda de fábula infantil, em sua maioria. Duas vezes, portanto, somos avisados de que não devemos confundir ficção e realidade. Talvez, justamente, por não ser tão possível delimitar seus campos e medir seus efeitos – o mal pode apresentar-se em qualquer “disfarce”. Não deixa de ser interessante pensar que Ana Torrent, a atriz que interpreta Ana, irá protagonizar, 23 anos depois, Thesis morte ao vivo, filme de Alejandro Amenábar, cuja história apresenta os snuff movies, fitas com “encenação de mortes reais”.

Março, 2010.


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