Por Josiane Orvatich
Em Manhattan, filme de 1979, de Woody Allen, temos a seguinte trama:
Manhattan (1979), de Woody Allen
“a história de Isaac Davis, Ike (Woody Allen), roteirista de televisão cuja esposa (Meryl Streep) o deixou para ficar com uma mulher. Agora ele está envolvido com Tracy (Mariel Hemingway), uma sofisticada porém muito doce menina de dezessete anos que o ama. Ele a adora, mas sente que não há futuro para os dois. Ele encontra Mary (Diane Keaton), amante de seu melhor
Em referência ao lançamento comercial, no Brasil, de Melancolia (2011), de Lars von Trier, publico artigo recente sobre o romance Os infortúnios da virtude, do Marquês de Sade, cuja personagem, Justine, não só é homônima à de von Trier, mas sofre da mesma melancolia, aspecto sobre o qual desenvolvo uma reflexão decorrente do percurso de sua intimidade na relação de exposição de seu corpo pelos libertinos.
1. Expor o corpo
Octavio Paz, em seu ensaio de 1986, O
Antoine de Baecque, historiador político e da cultura, integrante da equipe dos Cahiers du Cinéma durante quinze anos como crítico e editor-chefe, editor de cultura do jornal Libération, entre 2001 e 2006, nos apresenta, em seu livro Cinefilia, recém-lançado no Brasil pela Cosac Naify, a difícil tarefa de definir e investigar o sentido da cinefilia, “essa coisa misteriosa, ritual, secreta” (p. 19).
Situando-a no período do pós-Guerra, na França, a abrangência do que
Sempre bela (2006), filme-homenagem de Manoel de Oliveira a Luis Buñuel e Jean-Claude Carrière por Bela da tarde (1967), me suscitou uma questão que tangencia o filme, mas, sobretudo se sobressaiu na crítica brasileira a seu respeito: o mistério da mulher.
Entre o culto da mulher como mistério (enigma) e o ódio à mulher como mistificação (mentira), dirá o psicanalista Serge André em seu livro O que quer uma mulher, está o “desconhecimento do que constitui a verdadeira
O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, em 1871, escreveu O nascimento da tragédia no espírito da música, em que discutiu, sobretudo, o nascimento do pensamento racional no Ocidente.
Esta discussão veio em forma de análise da tragédia grega, gênero de dramaturgia teatral anterior ao aparecimento da dialética socrática, esta responsável pelo apaziguamento da catarse em nome da argumentação lógica.
O que esta reflexão tem em comum com o novo filme de Clint Eastwood,
Por Josiane OrvatichThe burning plain (2008), de Guillermo Arriaga, muito mal traduzido no Brasil por Vidas que se cruzam – esse poderia ter sido o título (ainda ruim) de outros roteiros bastante conhecidos do diretor, 21 gramas (2003), Babel (2006) e Amores brutos (2000), caso levássemos em conta a estrutura narrativa que costura as vidas de diversos personagens – leva ao extremo a compreensão do feminino.
Arriaga, agora sozinho no projeto – por sozinho quero dizer sem trabalhar com o
As três irmãs Lidell, entre oito e treze anos, e mais especificamente Alice Lidell, e suas vidas vitorianas, estiveram na mente de Lewis Carroll (pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson) quando este se aventurou a escrever Aventuras de Alice no país das maravilhas (1865), e depois Alice através do espelho (1871).
A história-base foi primeiramente narrada em um passeio de bote com as crianças para, após um pedido de Alice, ser escrita por Carroll.
Aparentemente, a
Subvertendo a lógica iluminista, o que já é ótimo por si só, Um lobisomem americano em Londres (1981) traz humor sem deixar de ser aterrorizante. O terror aqui é muito mais um descobrir-se “vítima” do acaso e do imprevisível – reafirmando novamente a tão surrada teoria freudiana – do que a valorização do sobrenatural.
Revi ontem esse filme de John Landis e achei irresistível recomendá-lo ou relembrá-lo a quem já o conhece.
Jogando com muitos clichês de filmes do
“The right hand does not always know what the left is doing; generosity in Bataille’s universe never can be pure”, diz Allan Stoekl ao comentar a religião na obra de Georges Bataille.
Essa afirmação pode ser a chave para compreendermos alguns dos elementos suscitados pelo filme de Victor Erice, O espírito da colmeia, de 1973, cuja história se passa em uma província espanhola, por volta de 1940.
Num ambiente que emenda a Guerra Civil Espanhola com a Segunda Guerra
Em tempos de perseguição a Roman Polanski, por um suposto crime de abuso sexual, em 1977, me parece pertinente pensar a respeito da dúvida que paira sobre aquele que é identificado como criminoso.
Em 1994, o diretor franco-polonês lançou A morte e a donzela, trama ambientada em “um país da América do Sul, após a queda da ditadura”. Fábula das relações entre algoz e vítima, a personagem Pauline Lorca, casada com o promotor Gerardo Escobar, recém convocado para a
Com direção de George Cukor (Minha bela dama, 1964), batizado de “diretor de mulheres” por alguns críticos de sua época, o filme À meia luz (1944) conta com duas participações femininas de destaque, Ingrid Bergman e Angela Lansbury – a primeira, ganhadora do Oscar pela obra, e a segunda, indicada ao mesmo prêmio como coadjuvante.
Mesmo a contragosto do diretor, o que nos fica registrado é sua sutileza e precisão ao contar histórias que envolvem mulheres.
Nessa,
Pier Paolo Pasolini (1922-1975), diretor italiano, estreia no cinema como roteirista em 1953 com o filme A mulher do rio, de Mario Soldati.
Três anos depois, auxilia Federico Fellini no roteiro de As noites de Cabíria, e ainda escreve e colabora em outros roteiros antes de dirigir seu primeiro filme, Desajuste social, em 1961. Poeta e escritor, Pasolini estudou literatura italiana, filologia românica, história da arte e pintura. Dirigiu revistas e publicou livros
Gostaria de começar tentando definir, ou ao menos tatear, a palavra melancolia. Não sem razão. Mas por me parecer o sentimento que mais se aproxima da estética de Krzysztof Kieslowski, cineasta polonês falecido em 1996.
Em Não matarás (1988), como em Não amarás (1988), ou ainda na Trilogia das Cores – A liberdade é azul (1993), A igualdade é branca (1994) e A fraternidade é vermelha (1994) –, não há revolta, há espanto. Um espanto que paralisa as ações. Isto me soa
Magnetismo é a primeira palavra para descrever não somente os filmes Capote (Bennett Miller, 2005) e Confidencial (Douglas McGrath, 2006), tampouco o “romance sem ficção” A sangue frio, como Truman Capote mesmo definiu sua obra, mas toda a história que ronda a concepção deste “episódio”.
Por episódio compreendo os assassinatos, o interesse de Capote pela notícia, seu envolvimento de cinco anos com as entrevistas dos assassinos, o livro em si e sua repercussão, tanto
Loucos do Alabama (1999) é a estreia do ator espanhol Antonio Banderas na direção de filmes.
Banderas consolidou-se na carreira de ator em filmes de Pedro Almodóvar, como Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988) e Ata-me (1990), seguindo carreira nos EUA e destacando-se em Filadélfia (1993) ao interpretar o namorado de Tom Hanks, um advogado que é demitido por ter contraído AIDS.
Banderas escalou sua esposa Melanie Griffith para o papel principal de seu filme.
Filme de estreia da atriz Kate Winslet, ganhadora do primeiro Oscar de sua carreira neste ano por O leitor (2008), Almas gêmeas (1994) traz a surpresa de ter sido dirigido, sete anos antes de O senhor dos anéis, a sociedade do anel (2001), por Peter Jackson.
O mesmo diretor ainda filmaria as continuações da saga de Frodo, O senhor dos anéis, as duas torres (2002), O senhor dos anéis, o retorno do rei (2003) e o segundo remake de King-Kong (2005).
Talvez o espanto
Não é de hoje a ideia dos jogos sórdidos emergidos de uma atmosfera ingênua ou mesmo infantil.
O ritual de iniciação que deve submeter os iniciados à crueldade, participando dela ativamente ou como meros espectadores, já encontra no Marquês de Sade a bela Eugénie, personagem de “tez branca deslumbrante”, adolescente que será iniciada pela Senhora de Saint-Ange e Dolmancé nos “mistérios mais secretos de Vênus” no romance filosófico A filosofia na alcova (1795). Para
Talvez o excesso de conceitos filosóficos me tenha feito optar por quase nunca querer me aproximar de nada que, no cinema, fosse teórico. Portanto, sempre procurei me levar por algo que chamarei de intuição (ou impulso) para compreender os filmes e a arte.
Claro que, em meu pensamento, essas teorias e percepções acabam se misturando, pois não há como compartimentar o que absorvi dos filósofos para compreender o cinema através de categorias como a arte, a intuição, a
Produtora, uma condição de serPor Josiane Orvatich
Conheci Cláudia da Natividade em Milão, em 1998, quando esta ainda era uma engajada estudante de Ciências Políticas, já tendo passado por Roma, onde trabalhou e produziu documentários para uma ONG.
Mais jovem ainda, aos 16 anos, já havia entrado para o mundo da produção organizando lançamentos de produtos industrializados para testes de consumidor, em Curitiba, representando agências de publicidade de São Paulo – de carro a barrinhas de
A chave das palavrasPor Josiane Orvatich
Carlos Drummond de Andrade escreveu alguns dos versos mais fortes sobre o embate do homem com as palavras ao tentar traduzi-las do pensamento à linguagem verbal, ou mesmo ao tentar decifrá-las quando enfim traduzidas.
"Chega mais perto e contempla as palavras.Cada umatem mil faces secretas sob a face neutrae te pergunta, sem interesse pela respostapobre ou terrível, que lhe deres:Trouxeste a chave?"
Apaixonado pela palavra e pela imagem, Jorge